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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

[Cinema] Crítica: The Post: A Guerra Secreta - 2018

Não é raro se deparar com um filme que retrata o cotidiano do jornalismo. Cidadão Kane, Todos os Homens do Presidente ou A Montanha dos Sete Abutres são três clássicos que podem ser citados. Nos últimos anos, o tema voltou a ser assunto de filmes elogiados pela crítica, como O Abutre e Spotlight: Segredos Revelados. The Post - A Guerra Secreta tinha tudo para ser mais um, porém existe um toque de maestria de um diretor chamado Steven Spielberg.

No drama, Ben Bradlee (Tom Hanks) e Kat Graham (Meryl Streep), editores do The Washington Post, recebem um estudo detalhado sobre o papel dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. O roteiro foca nos desafios que precisaram ser ultrapassados para a publicação dos documentos, os chamados Pentagon Papers – 7 mil páginas sobre como a Casa Branca mentiu sobre a guerra do Vietnã.


Em 1971, o cenário era controverso. Apesar do aumento do número de soldados no campo de batalha, a guerra continuava. O que tinha iniciado apenas como uma segurança inicial se transformara em um combate ativo. Katherine Gragam era a primeira mulher a frente de um grande jornal americano, o The Washington Post e tinha que carregar nas costas um legado de mais de duas décadas. Além de lidar com o governo, Kat também tinha que suportar a pressão interna do jornal, que estava em pleno crescimento. Neste ponto, seu principal concorrente, o The New York Times já publicava documentos secretos sobre a atuação dos Estados Unidos no Vietnã.

Com a proibição do governo para que o Times parasse de publicar sobre o assunto, com suporte da Lei da Espionagem, restou ao Post a dúvida: correr o risco de ter seus funcionários presos e fechar ou continuar firme com a missão da imprensa?

O Pentagon Papers serviu como um estopim que terminou com o escândalo Watergate que causou a renúncia do presidente Richard Nixon, primeiro e único a deixar o cargo nos Estados Unidos. O fato serviu para reforçar o recado na época para a população e o governo: é papel da imprensa fiscalizar.

Elogiar Meryl Streep pode ser chover no molhado, porém é necessário. Sua 21ª indicação ao Oscar é merecida. Ao mesmo tempo que transmite uma serenidade e postura que somente Streep pode proporcionar, ela demonstra o receio de destruir um legado, colocar o seu nome em jogo e arriscar o trabalho de seus funcionários. Tom Hanks também não fica para trás, mesmo correndo menos riscos, é ele quem insiste na causa. Se era o governo que decidia o que poderia ser publicado, o que é a liberdade de imprensa afinal?

As interações entre Bradlee e Kat têm diversas camadas. É um laço de amizade misturado com um respeito de chefe e funcionário completado com pequenas desavenças ideológicas. É uma junção que apresenta uma química muito evidente.


Spielberg é um diretor que não precisa de apresentações, seus clássicos falam por si. Entre 2006 e 2010, o norte-americano deixou de lado sua principal função para atuar como produtor. No período citado, trabalhou como diretor apenas em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Em 2011, voltou e não parou mais. Cavalo de Guerra, Lincoln, Ponte de Espiões, até chegar em The Post.

Apenas pelo fato de juntar Maryl Streep e Tom Hanks no mesmo filme, Spielberg já merece elogios. Mesmo depois de tantos filmes, ele ainda não perdeu a mão.Para mostrar como a redação é um ambiente que não para nunca, Spielberg decidiu manter a câmera na mão. Mostrando o dinamismo do jornalismo, os planos sequência em diversos cantos da redação servem para mostrar a redação funcionando como apenas um organismo. A câmera persegue e se aproxima dos personagens e objetos, como se mostrasse a ânsia da busca pela verdade.

O diretor romantiza até o processo gráfico, as máquinas de escrever e as prensas são filmadas como as ferramentas da liberdade americana. Cada plano detalhe mostra a importância do processo, como se aquela impressão não representasse apenas a rotina de mais um jornal do dia. Os planos em contra-plongée também servem para exaltar as figuras de Streep e Hanks.


A história, entretanto, não tem um ápice. O roteiro é muito bem amarrado, mas o significado dos acontecimentos é muito mais importante do que qualquer coisa que poderia ser demonstrada em cena.

The Post – A Guerra Secreta mostra como a verdadeira batalha pode ser invisível para a população. A publicação não trouxe apenas a relevância para o jornal. Também mostrou que as mulheres poderiam ter cargos altos, que a apuração do jornalismo ainda fazia sentido e que tudo ao nosso redor sempre pode ser alterado para melhor.

Nota (de zero a cinco): 4

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

[Cinema] Crítica: A Forma da Água - 2018

Seja em “O Labirinto do Fauno”, “A Espinha do Diabo” ou “Hellboy”, os dois primeiros com uma temática mais sombria e o último com a liberdade proporcionada pelos filmes de herói, a filmografia de Guillermo del Toro é repleta de seres fantásticos.

“A Forma da Água”, novo longa que rendeu um Globo de Ouro para o diretor mexicano, se passa em plena Guerra Fria, na década de 60. Elisa Esposito (Sally Hawkings) é uma zeladora muda de um laboratório do governo americano que acaba de receber uma criatura nova para realizar experiências. O objetivo era ter uma vantagem contra os soviéticos. Ao realizar suas tarefas diárias com sua colega de trabalho Zelda (Octavia Spencer), Elisa começa a se afeiçoar pela criatura.


Como a personagem é muda, suas principais falas são apresentadas na tela. Elisa percebe que a criatura não a enxerga incompleta como as outras pessoas. Como não entende os seres humanos, a voz de Elisa não faz falta: os dois não produzem som e movem a boca para falar. Ao perceber que a criatura é maltratada diariamente por Richard Strickland (Michael Shannon), supervisor de segurança do laboratório, Elisa prepara um plano de resgate.

Del Toro faz questão de apresentar como a água está presente na vida de Elisa. Por meio dela Elisa se masturba, faz o café da manhã, observa a chuva no caminho para o trabalho e até lê frases motivacionais relacionadas ao elemento (“O tempo não é nada mais do que um rio correndo pelo nosso passado” e “A vida é apenas o afogamento dos nossos planos”).

A atuação de Sally Hawkings é delicada, com expressões e pequenos gestos. Demonstrar raiva com uma personagem muda é difícil e Hawkings faz um trabalho espetacular. Incrível também como Octavia Spencer sempre consegue uma de indicação de atriz coadjuvante. O tempo de tela é menor do que em “Estrelas Além do Tempo”, mas merece destaque pelo alívio cômico.


A trilha sonora de Alexandre Desplat é espetacular e fala por si só. Depois de oito indicações e um Oscar por “O Grande Hotel Budapeste”, sem dúvida seu trabalho renderá mais prêmios. É um trabalho singelo, mas é um elemento-chave para introduzir o espectador no universo fantástico de Del Toro.

A fotografia busca sempre um tom esverdeado. É interessante perceber como praticamente todas as cenas possuem elementos cenográficos verdes ou uma iluminação mais voltada para a cor.

O diretor aproveita pequenas cenas para demonstrar com sutileza como a água e a relação entre Elisa e a criatura são importantes para o longa. Duas merecem destaque. Uma simples transição de cena com duas gotas na janela do ônibus se transformam em uma representação do futuro que a protagonista imagina para os dois.


Em outra cena, em que o banheiro fica cheio de água, usa o exagero e o absurdo por meio do humor para demonstrar até onde Elisa chegaria para ter êxito na libertação da criatura.

“A Forma da Água” é mais um exemplo da criatividade e imaginação deste diretor que decidiu compartilhar suas fantasias por meio do cinema. Com um final espetacular, o próprio del Toro resume seu filme: “É como um poema sussurrado por alguém apaixonado”.

Nota (de zero a cinco): 5

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

[Cinema] Crítica: O Destino de uma Nação - 2018

Vale a pena assistir a um filme apenas por uma atuação? Se depender de Gary Oldman, sim. Joe Wright já está acostumado a dirigir dramas baseados em livros. O britânico já trabalhou em “Anna Karenina”, “Desejo e Reparação” e “Orgulho e Preconceito”. Desta vez, mais um caso: “O Destino de uma Nação”, de Anthony McCarten, que também é roteirista do filme.

O longa se passa em 1940, época em que o exercito de Hitler já havia invadido diversos países europeus e estava pronto para conquistar a Bélgica. Na Grã-Bretanha, o parlamento havia perdido a fé em seu líder, Neville Chamberlain, considerado incapaz de liderar em período de guerra. Viscount Halifax era a escolha mais fácil, mas Winston Churchill (Gary Oldman) era o único membro do partido que tinha apoio da oposição.


Mesmo após um histórico ruim, como a Campanha de Galípoli, também conhecida como Batalha dos Dardanelos, que teve cerca de 25 mil britânicos mortos, Churchill foi o escolhido para o cargo de primeiro-ministro com alguns olhares desconfiados.

O ponto central da história é a dúvida de Churchill entre tentar um tratado de paz com Hitler ou trabalhar na evacuação dos homens de Dunkirk, na operação Dínamo, em que quase 300 mil soldados foram levados para casa pela frota civil.

Além de lidar com a ameaça de Hitler, era preciso controlar seu próprio gabinete de guerra composto pelos seus principais adversários já citados: Neville Chamberlain (Ronald Pickup) e Viscount Halifax (Stephen Dillane).

O recorte histórico acompanha o político desde a preparação dos discursos com a datilógrafa Elisabeth Layton (Lily James) até as suas primeiras decisões na Câmara e os encontros com o Rei George VI (Bem Mendelsomn).

Gary Oldman está completamente transformado como Churchill. A caracterização está incrível e o ator se entrega para o papel. Seu trabalho é perfeito desde o tom de voz, expressões, até a forma de caminhar. Sem exageros, Oldman tem espaço para dar gritos, ordens, murmúrios e olhares de medo. Trata-se de uma pessoa falha, que também tem medos e problemas, o que acaba humanizando a figura do primeiro-ministro.

Além de Churchill, Layton é uma das poucas personagens que consegue um pouco de profundidade, mas apenas por causa da grande carga emocional de passar a maior parte do tempo junto com o político.

Outra personagem que poderia ser mais explorada é Clemmie (Kristin Scott Thomas), mulher de Churchill, que tenta aparar as arestas para o primeiro-ministro não ser tão odiado, mas se transforma apenas em uma conselheira em momentos difíceis.


Com cenas focadas no poder de persuasão e articulação de Churchill, “O Destino de uma Nação” lembra a estrutura de “O Discurso do Rei”, com momentos de preparação para um grande ápice. O filme não chega a apresentar a ação de “Dunkirk”, de Cristopher Nolan, que toca no mesmo tema. O ideal seria ver os dois filmes: enquanto um foca nos bastidores da operação, o outro é direcionado para a ação do resgate dos soldados.

A fotografia do filme é um ponto que merece destaque, misturando pontos muito bem iluminados com sombras. São selecionados em cena pequenos pontos para guiar o olhar do espectador como, por exemplo, o fósforo de Churchill na apresentação a Layton, o ponto de luz central na conversa com o Rei e o jogo de luzes e sombras nas reuniões com o gabinete de guerra.

Se a fotografia e Oldman são pontos positivos, um momento específico, porém, beira o ridículo. Na cena do metrô, Joe Wright tinha diversas maneiras de demonstrar a tentativa de Churchill ouvir o povo, mas a maneira adotada dá até um pouco vergonha alheia. É como se o diretor mostrasse que o povo se importava mais em incentivar Churchill, o grande herói do povo, do que reclamar sobre a maior crise enfrentada na história daquele País.


A aula de história é valida e o questionamento de Churchill segue atual: “Quantos ditadores precisam dominar o mundo para aprendermos com eles?”.

Com muito foco na política interna e no próprio primeiro-ministro, Wright exagera na extensão do filme e peca no ritmo. Fica a impressão que o roteiro tinha potencial para entregar muito mais, porém ficou limitado a dar tempo de tela para Gary Oldman mostrar o seu talento.

Nota (de zero a cinco): 3

domingo, 1 de março de 2015

[Cinema] Crítica: Birdman Ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) - 2014

Riggan Thomson (Michael Keaton, em um papel espetacular) é um ator que ficou marcado por apenas por um personagem. Birdman foi um herói de uma trilogia baseada em quadrinhos lançada há muito tempo, que o deixou muito conhecido, mas que dificultou sua carreira na busca de novos papéis.

Muitos anos depois, o ator adapta o livro de Raymond Carver com ajuda do agente Brandon (Zach Galifianakis), escrito há mais de 60 anos, para uma peça de teatro da Broadway. Tudo para tentar um recomeço.

Lembrando que a crítica contém spoilers, então cuidado. Assiste o filme e depois volta aqui! 

Com o andamento do filme, fica fácil entender os motivos do longa de Alejandro G. Iñárritu ter conquistado quatro estatuetas no Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia.

A história de "Birdman" é um verdadeiro mar de críticas contra o cinema, o teatro, os atores, os críticos, os roteiros e o público. O filme não se importa em falar nomes de atores e criticar o papel de muitos na indústria hollywoodiana.

O filme começa com a procura de Riggan (Michael Keaton, um dos indicados para melhor ator) por um novo ator para a peça. O escolhido, Mike Shiner (Edward Norton, indicado para o Oscar de melhor ator coadjuvante), ajudaria a atrair a crítica e o público, mas representa aqueles atores que ainda não chegaram ao estrelato e que fazem exigências ridículas para participar de um filme.


Os famosos coadjuvantes que após fazer o mínimo de sucesso em um filme sentem-se os maiores atores da face da Terra.

O mesmo acontece com Lesley (Naomi Watts), que sempre sonhou em um papel da Broadway e que não consegue se contentar com o papel de hoje. Como aquele tipo de ator que quer estrelar um blockbuster sem antes ter feito um papel importante. Algo como pegar o elevador todos os dias sem antes ter experimentado subir uns bons andares de escada.

Uma jornalista pergunta se Roland Barthes, filosofo francês, participou de um dos filmes do Birdman. Em outras palavras, outra crítica: jornalistas despreparados para entrevistas. Ao invés de perguntar sobre a nova peça de teatro, pergunta se é verdade se Riggan injetou sêmen de bebê porco para rejuvenescimento facial, pois viu em um post no Twitter. Outra reclamação: jornalistas que se baseiam em rumores e fontes inadequadas.

"Deveríamos ter aceitado o 'reality' que nos ofereceram", representando toda a comodidade que é aceitar um papel imbecil do que arrumar um jeito de financiar uma peça ou adaptar um roteiro.

Sam (Emma Stone, que logo deve ganhar um Oscar), filha de Riggan, comenta a atual importância de viralizar para tornar algo um sucesso e a falsidade de atores que dizem se sacrificar "em nome da arte", mas que não verdade só querem promover a própria carreira. Não ter um blog, um Twitter ou um Facebook, torna um ator invisível, segundo Sam.

O "viralizar" é justamente entrada para a crítica ao público, que dá mais valor ao bizarro do que ao merecimento. A crítica é representada no filme com a cena de Riggan de cueca nas ruas e no palco.

O trabalho no teatro, o suor dos ensaios e desafios dos bastidores nunca serão mais lidos do que um ator famoso de cueca no meio da rua.

Outra contra o público: todos possuem gostos iguais e são preguiçosos. "Eles amam sangue, eles amam ação. Nada dessa conversa depressiva e filosófica", dizendo que a grande massa só quer ver mais do mesmo, pois pensar cansa.

Mais uma crítica é referente... aos críticos. Tabitha Disckenson, do Times (ou "aquela que parece que lambeu a bunda de um mendigo"),  é citada como a única opinião que importa em NY. Se ela gosta de uma peça, vira um sucesso. Se não gostar, será um fracasso. Ela fala sobre o teatro como se fosse algo de propriedade dela: "Você (Riggan) tomou um teatro que deveria ser usado com algo de valor", comenta em um bar.


"Um homem torna-se crítico quando não pode ser um artista", diz Mike. Dickenson é mal-intencionada. Antes da peça começar ela diz: "Não se preocupe, eu farei uma crítica ruim". A crítica acredita ter tanto poder, que pode julgar o que é arte de verdade. Ela fala mal da rotina dos atores, que entregam prêmios uns aos outros por fracas produções.

Riggan se defende dizendo que a crítica nada mais é do que uma rotulação, de colocar etiquetas com elogios ou maldades sobre algo na mídia. A mídia acaba esquecendo de falar sobre técnica, estrutura e roteiro, criando apenas comparações sem sentido.

A trilha sonora é basicamente uma bateria que se intensifica ou fica lenta. Algumas vezes, a trilha é feita por um elemento que aparece na cena, como um baterista na rua ou no meio dos corredores do teatro (?).

Não se incomode em ver muitas cenas sem sentido no filme, uma hora você se acostuma e entende o significado.

O diretor Alejandro G. Iñárritu, inova na maneira de filmar. A obra foi feita como se fosse apenas uma tomada, em plano-sequência. Em nenhum momento existe algum corte perceptível de câmera, que de vez em quando fica parada, gira ao redor da cena e que muda de cenário com uma facilidade incrível.

Apesar da câmera seguir na mesma sequência, o filme não se passa em apenas um dia ou em só um cenário. E essa é uma das maiores qualidades do longa. O tempo passa, o cenário muda e a câmera continua seguindo os atores. Gravar um filme inteiro desta maneira deve ter dado um trabalho gigantesco. Oscar de melhor diretor merecido pelo Iñárritu, que contou uma excelente história e de maneira arriscada.


"Birdman" critica tudo e todos, mas não esquece de contar uma história com grandes atuações e principalmente inovação. O filme joga na nossa cara como é difícil criar e como é fácil reclamar.

Tudo no filme pode ter diversas interpretações, inclusive o final, que poderia escolher o básico, jogo fácil, simples.


Mas quem disse que "Birdman" era para ser simples?
Ah, não se preocupe. Assim como o início e o meio, o final é incrível.

Nota (de zero a cinco): 5

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

[Cinema] Crítica: A Teoria de Tudo - 2014

"A Teoria de Tudo" conta várias histórias ao mesmo tempo: descreve como um estudante se tornou um dos cientistas mais respeitados no mundo, a construção da história de amor entre dois jovens, como uma pessoa pode lutar contra uma doença terrível e viver sabendo que tem pouco tempo de vida. O roteiro se movimenta entre os temas e consegue se sair bem em todos.


Lembrando que a crítica contém spoilers, então cuidado. Assiste o filme e depois volta aqui! 

Quando soube que seria contada a história de Stephen Hawking no cinema, admito que fiquei muito empolgado. Não é comum ver um cientista como protagonista, principalmente em um drama com uma história de amor.

Inspirado no livro "Travelling to Infinity: My Life with Stephen", de Jane Hawking, a trama do diretor James Marsh começa com Hawking (Eddie Redmayne, excepcional) na Universidade de Cambridge, já se destacando como um promissor cosmólogo. De uma forma natural e convincente, conhece Jane Wilde (Felicity Jones, indicada ao Oscar de melhor atriz), uma estudante de artes e literatura.

O filme se apoia em dois temas para desenvolver o roteiro: o desdobramento do relacionamento de Jane e Hawking e como a doença degenerativa ELA (esclerose lateral amiotrófica) modificou a vida do cientista.

                 

Desde o início da trama, é possível perceber a evolução da doença de Stephen. Um leve movimento involuntário, que derruba um copo de café, mostra apenas o começo. No hospital após uma queda, o médico avisa que o cientista terá apenas mais dois anos de vida e que aos poucos não vai mais conseguir se movimentar, engolir ou falar. A locomoção fica lenta e logo precisa de muletas.

Sentado na mesa de jantar com amigos, Hawking percebe que não consegue mais se alimentar sozinho e observa os outros sentados na mesa. Um simples movimento de levantar uma colher torna-se um grande desafio.

Saindo do jantar, ele tenta subir a escada para o seu quarto e não consegue. Ao mesmo tempo, observa Jane. A partir deste momento, Stephen percebe que nunca mais será o mesmo.

Jane é um verdadeiro pilar para Hawking. Ela cuida desde a alimentação, banho, até uma ajuda para colocar uma roupa limpa. O mais importante era que Jane fazia por amor, não como uma obrigação. Ela sabia qual seria o futuro do casal, mas insistiu com o relacionamento.

Mesmo com a doença, Stephen insiste em continuar trabalhando. Sua teoria de buracos negros e o tempo é aplaudida por seus professores e conquista o mundo. Tudo isso preso a um corpo que não corresponde às suas necessidades.

Antes de "A Teoria de Tudo", tive dúvidas quanto a escolha de Eddie Redmayne para o papel, que tinha visto trabalhar apenas em "Os Miseráveis". Porém, desde o começo do filme, Redmayne representa um Stephen que aceita as suas dificuldades e que pode ser gentil, teimoso e um gênio, tudo ao mesmo tempo.

É comum a Academia dar o Oscar a atores que superam problemas em um papel. Apenas nos últimos anos, Colin Firth venceu como o gago rei George VI, em "O Discurso do Rei", e Matthew McConaughey, como um eletricista diagnosticado com AIDS, em "Clube de Compras Dallas".

A escolha de Redmayne como melhor ator é mais do que justa. A maneira que o jovem ator representa tudo o que o cientista sentia, mesmo sem poder se movimentar direito, é impressionante. A dificuldade na fala, os pés tortos, a forma de sentar na cadeira, o toque impreciso nos controles... todo o trabalho é impecável e justifica o Oscar de melhor ator a um novato.


Outros pequenos detalhes, como a posição dos seus dedos atrofiados, um olhar diferente para representar ironia ou a maneira que sua locomoção muda conforme a evolução da doença, constroem uma atuação incrível.

A cena em que Stephen imagina levantar para pegar uma caneta é linda de ver. Encostado na cadeira, Eddie arruma sua postura, levanta mancando, e aos poucos fica "saudável" de novo.

A cena é incrivelmente bem feita, com uma leveza única. O maior desejo de um físico que estuda a origem do Universo é apenas ficar de pé novamente.

Felicity Jones também mostra muito bem o outro lado, de quem não tem a doença, mas que é obrigada a viver com dificuldade em nome da felicidade do casal. Ela mostra a paciência (e o cansaço) que é necessária cuidar de uma pessoa, ainda mais com a teimosia de Stephen, e como é possível passar por obstáculos em nome de um relacionamento.

Além das excelentes atuações, destaque para a belíssima trilha sonora de Jóhann Jóhannsson e a fotografia simplesmente linda, com cores intensas.


Mesmo com o livro lançado, com sua popularidade no mundo todo e o respeito de diversos cientistas, seu maior orgulho é o relacionamento com Jane e seus três filhos.

"A Teoria de Tudo" mostrou absolutamente tudo o que eu esperava. Atuações espetaculares, uma fotografia linda e a história de superação de um gênio da física.

Ao escolher contar uma história de amor, o diretor acertou em cheio. O filme é feito para fugir do rótulo de apenas mais um romance, desenvolvendo uma história de um casal sem ser piegas. O roteiro conseguiu balancear bem a doença, o relacionamento e a ciência.

Criar um filme com base em uma biografia poderia ser monótono nas mãos erradas. O diretor poderia seguir por outros caminhos e criar um personagem metido e arrogante. Poderia detalhar o caminho para chegar na teoria dos buracos negros e como o mesmo desacreditou a própria criação. Podia entrar no tabu da religião contra ciência. Mas ainda bem que não foi o caso.

O diretor acertou em se contentar em contar a história de amor de um cientista. Espero que o filme aumente a curiosidade das pessoas em relação a ciência.


Se cada pessoa que guardou um tempo para ler "50 Tons de Cinza" tivesse tempo para ler "Uma Breve História do Tempo" do Hawking ou "Pálido Ponto Azul" de Carl Sagan, teríamos um mundo melhor. Se não tivéssemos um mundo melhor, pelo menos teríamos discussões mais inteligentes.

Nota (de zero a cinco): 5

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

[Cinema] Crítica: Whiplash - Em Busca da Perfeição - 2014

Atenção! Whiplash, o vencedor de três categorias no Oscar, não é um musical. Você já pode se livrar do trauma de Mamma Mia e esquecer Glee. O diretor Damien Chazelle mostra como um filme sobre música pode contar uma história digna de um dos melhores filmes do ano. Até porque ser um músico não é só subir em um palco e ser aplaudido.

Lembrando que a crítica contém spoilers, então cuidado. Assiste o filme e depois volta aqui!

Andrew Neiman (Miles Teller, guarde este nome) é um aluno do primeiro ano do Conservatório Shaffer, a melhor universidade de música dos EUA. Neiman tem o sonho de se tornar o melhor baterista de jazz da sua geração.



O principal professor do local, Terence Fletcher (J. K. Simmons, em um dos melhores papéis da sua carreira), procura por músicos talentosos para a banda principal da universidade, a Studio Band. Baterista reserva da turma de estudantes, Andrew é chamado para um teste com a banda como suplente. 

Mesmo os músicos mais experientes tem medo de Fletcher. Quando ele entra no estúdio, todos olham para o chão, sem manter contato visual. Ao escutar um instrumento desafinado, imperceptível para um leigo, o professor faz o cara do trombone chorar e se retirar. Sinta o nível:


Antes de começar o ensaio, Fletcher dá um apoio ao novato: "Divirta-se, não fique preso aos números". Ao começar a tocar e cometer um erro, que até agora não encontrei, o professor pressiona Andrew. E mais. E mais. Aos berros. É muita pressão. 

Andrew decide praticar até ficar exausto. Mais do que isso, deixa sangue na bateria com as feridas causadas pelo esforço repetitivo com as baquetas.

Apesar do filme focar no professor e no aluno, ainda é pouco discutida a relação de Neiman com a família. Ele precisa explicar sobre o futuro incerto de alguém que está só começando no mundo da música. "Prefiro morrer bêbado e falido aos 34 anos tendo pessoas falando sobre mim na mesa, do que rico e sóbrio aos 90 e ninguém lembrar quem eu era", diz o jovem na mesa de jantar.

Em meio a tudo isso, ele convida Nicole (Melissa Renoist), funcionária de um cinema, para um encontro. Ela é uma típica jovem que ainda não sabe qual rumo seguir. Seu papel no filme é curto, mas coloca na cabeça de Andrew que nada, nem ninguém deve atrapalhar seu caminho. Para tentar ganhar, muita coisa fica perdida no caminho.


Destaque para as várias cenas entre Simmons e Miles. Em uma delas, enquanto um chuta partes da bateria para longe, em pleno contraste depois de chorar em nome de um competente músico que faleceu, o outro deixa sangue na bateria com uma expressão de raiva e dor, completamente esgotado.

A relação entre os dois anda entre a admiração, a raiva, a decepção e o orgulho. Andrew se torna tão intenso quanto Fletcher.

Se um só consegue viver com a perfeição na música, o outro se esforça o máximo possível para encontrar o reconhecimento. "Qualquer idiota balança os braços e mantém uma banda no ritmo. Eu estava lá para empurrar as pessoas para além do que se espera delas", comenta o professor.

Simmons mostra porque venceu o Oscar de melhor ator coadjuvante. Sua atuação é muito expressiva e impressionante. Ele consegue transparecer raiva e profundidade, mesmo sem o filme contar muito sobre sua historia. 

Quanto a Miles Teller (o novo Reed Richards, do reboot do Quarteto Fantástico), fica um futuro brilhante pela frente. Não tenho dúvidas que se escolher os papeis certos, um dia será indicado. 

A vontade de Fletcher de moldar uma lenda faz sentido até um certo ponto. 


Óbvio que humilhar alguém não é a melhor forma de ensinar, mas muita gente fica confortável vivendo na comodidade. São poucos que se esforçam para dar mais alguns passos. Uma lenda não desistiria tão fácil.

Whiplash poderia ser um filme clichê sobre a conquista de um sonho, mas escolheu um caminho alternativo, apostando na bateria e em uma base no jazz, um gênero que para grande parte da nova geração se tornou antiquado. 

  
O filme é excelente justamente por fugir do caminho mais fácil. Na busca de um objetivo você tem duas opções: procura uma pessoa para te dar um empurrão ou deixa sangue e suor no caminho. 

Nota (de zero a cinco): 5

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

[Cinema] Crítica: O Jogo da Imitação - 2014

Baseado em fatos reais, a maior parte de "O Jogo da Imitação" se passa em plena Segunda Guerra Mundial. Trata-se da história de Alan Turing (Benedict Cumberbatch, em um papel brilhante), que viveu em uma época complicada e intolerante. O longa também apresenta cenas da sua infância no colégio, mostrando como ele começou a lidar com a homossexualidade, e das consequências do fim da guerra.

Lembrando que a crítica contém spoilers, então cuidado. Assiste o filme e depois volta aqui!

Considerado um prodígio pela inteligência fora dos padrões, Alan é um gênio matemático, porém prepotente e arrogante. Ele sabe bem do seu potencial e que é o melhor do seu país em decifrar códigos.

Ele sabia que podia ajudar os aliados a tentar quebrar o código da "Enigma", máquina utilizada pelos alemães para criptografar mensagens secretas. Os aliados recebiam as mensagens, porém não conseguiam decifrar.

Além da gigantesca complexidade, o sistema reiniciava rapidamente, criando em pouco tempo um novo código para transmitir a mensagem. Para tentar resolver o que os franceses e americanos ainda não tinham conseguido, o governo de Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial, cria uma equipe com os melhores matemáticos ingleses.

O time liderado por Hugh Alexander (Mathew Goode) recebe Alan, mas logo se cansa da pouca ajuda, já que ele se importa apenas em criar um esboço de uma máquina para decifrar o "Enigma".



Após uma reclamação oficial da equipe para o comandante Denniston (Charles Dance, o Tywin Lannister, de Game of Thrones), Alan resolve explicar seu plano enviando uma carta diretamente para Churchill.

Com a resposta positiva para a continuidade do projeto, Alan se torna o líder da equipe, demite dois funcionários sem a menor culpa e decide se jogar de vez na criação da máquina, junto com Hugh, John Cairncross (Allen Leech), Peter Hilton, (Matthew Beard) e Joan Clarke (Keira Knightley), a única mulher do grupo.

São trilhões de possibilidades para decifrar. Segundo as contas do próprio protagonista, seriam necessários 20 milhões de anos para descobrir algo. Se os humanos não são capazes de decifrar a máquina, quem sabe uma máquina possa pensar mais rápido e criar um padrão.

Nas cenas da sua infância, Alan cria uma relação com o amigo Christopher através da criptografia. Por meio dela, o jovem começou a se interessar por códigos. Com a perda inesperada do amigo, justamente no momento que percebe que o sentimento é maior do que uma amizade, Alan passa a ficar cada vez mais sozinho e a se dedicar somente aos estudos. No futuro, essa seria uma base para a criação da sua máquina, a "Christopher".

A atuação de Cumberbatch é impecável. Em certos momentos, ele demonstra total controle de tudo. Em outros, fica gago, inofensivo e demonstra nervosismo diante de violência, fruto do bullying sofrido quando criança. O papel, que lembra a inteligência e arrogância de Sherlock, parece ser feito para o ator.

Keira Knightley também não deixa nada a desejar. Joan é muito importante para o desenvolvimento da história e representa as mulheres que podiam muito bem ser mais do que apenas cozinheiras ou recepcionistas na guerra. Mesmo em um grupo de homens, ela conseguia se destacar por seu pensamento rápido. Joan era uma das poucas pessoas que entendiam Alan.

O final é ao mesmo tempo feliz e triste. Feliz por conta de um gênio, que salvou milhares de vidas por diminuir o tempo de guerra em mais de dois anos. Graças a ele, tivemos o início de um protótipo do computador e diversos derivados de sua tecnologia.

A parte triste é o cenário em que a invenção foi criada e a intolerância com os homossexuais na época. Alan foi obrigado a esconder quem realmente era. Ele foi obrigado pelo governo inglês a fazer uma castração química, terapia com hormônios femininos. Turing se suicidou aos 41 anos.

Para ter noção, apenas em 2013, a rainha Elizabeth II concedeu perdão real a Alan pela sua condenação por homossexualidade. Diversas outras histórias continuam mantidas em sigilo como segredo de guerra.

Imagino quantos "Alans" permanecem desconhecidos e quantas pessoas geniais foram obrigadas a permanecer em silêncio após uma criação. Já imaginou se o maior feito da sua vida não pudesse ser divulgado?

Desejo apenas que a história do Alan Turing não seja apenas vista como "o cara que criou o computador". Gênios precisam ser conhecidos e suas histórias precisam ser contadas para inspirar outros gênios. Felizmente, o cinema é o lugar perfeito para isso.

Nota (de zero a cinco): 5

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

[Cinema] Crítica: O Grande Hotel Budapeste - 2014

A história de "O Grande Hotel Budapeste" acontece entre as duas grandes Guerras Mundiais, mais especificamente em 1932 na fictícia ex-República de Zubrowka, na fronteira europeia mais oriental, na cidade de Nebelsbad. A trama tem como base um hotel que já foi muito conceituado, mas que começou a descambar para uma futura demolição. Lembrando que a crítica contém spoilers, então cuidado. Assiste o filme e depois volta aqui!

Trata-se de um livro de memórias lido por uma menina em 1985, com um homem contando em 1968, as histórias vividas em 1932. Parece complicado, mas no filme é bem fácil de entender. O dono do hotel, Sr. Zero Moustafa, (F. Murray Abraham) vê o local com olhos de um romântico, como uma velha ruína encantada.


O filme começa com a história contada pelo dono do hotel, sobre como Zero (jovem vivido por Tony Revolori) virou mensageiro e melhor amigo do concierge Monseur Gustave H. (excelente atuação de Ralph Fiennes).

O concierge estava acostumado a dar um "tratamento especial" para as hospedes idosas, loiras e ricas. Era assim que ele mantinha a fidelidade e deixava o hotel sempre cheio. Até que uma das hospedes, Madame D, falece e deixa uma grande herança.
No meio dela, o quadro "O menino e a maçã", de Van Hoytl, herdado por Gustave para fúria de Dmitri (Adrian Brody), filho de Madame D e sua gigante família.



Gustave é considerado culpado mesmo sem provas do assassinato de Madame D e do roubo do quadro renascentista mais valioso do mundo, um dos poucos ainda fora dos museus. A história segue com as consequências da prisão, a batalha pela herança e a procura de manter intacto o nome do Grande Hotel Budapeste.

O diretor Wes Anderson consegue juntar suspense, perseguições, prisão, mortes e comédia. São diversos recortes em um só roteiro, que fluem muito bem no produto final. Já uma característica do diretor, as câmeras centralizam o foco da ação.

Os diálogos são rápidos e sempre acompanhados por uma dose de humor, que consegue ser respeitoso e agressivo ao mesmo tempo. As cenas entre Zero e Gustave sempre são acompanhadas de esquisitices e ironias.

Dmitri e Jopling (Willem Dafoe, cruel capataz do herdeiro), dão a impressão de vilões de filmes antigos, inclusive com trilhas de terror quando aparecem. Porém, a maldade é vista por um lado mais light, mesmo com cenas não tão comuns em filmes mais leves.

Ralph Fiennes faz um grande trabalho, retratando M. Gustave um homem educado e refinado, definitivamente alguém fora de sua época, mas ao mesmo tempo metódico ao extremo e adorador de poesias. O filme ainda conta com ótima participação de Jude Law, Edward Norton, Bill Murray, Owen Wilson, entre outros.

O resultado é um filme com um sentimento nostálgico, com um toque de ironia e muito perfeccionismo. No final das contas, as câmeras são tão simétricas quanto os costumes exagerados de Gustave.

O filme foi lançado em fevereiro de 2014, mas não perdeu o fôlego e conseguiu nove indicações para o Oscar e o Globo de Ouro de melhor filme de comédia ou musical.

Se o dono do hotel vê o Grande Budapeste como uma velha ruína encantada, Wes Anderson resgata o humor de suas inspirações e transforma seu filme de 2014 em um grande clássico consagrado.

Nota (de zero a cinco): 4,5

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

[Cinema] Crítica: Interestelar - 2014

Depois de assistir "Gravidade", fiquei ainda mais fascinado por qualquer notícia/filme/livro sobre espaço. A beleza das cenas de Alfonso Cuarón em IMAX me impressionaram. Muito. O tempo passa e me deparo com o trailer de Interestelar, com um elenco sensacional e direção de Christopher Nolan, que explodiu minha cabeça com "A Origem". Nem vou entrar nos méritos da trilogia "Batman". Lembrando que a crítica contém spoilers, então cuidado. Assiste o filme e depois volta aqui!


Matthew McConaughey, pra começar, passa por uma fase espetacular. Depois do Oscar em "Clube de Compras Dallas" e roubar a cena em uma ponta em "O Lobo de Wall Street", McConaughey dá destaque a tudo que participa atualmente.

Em Interestelar, ele vive Cooper, um engenheiro que se viu obrigado a trabalhar como fazendeiro. Ele vive na Terra em um futuro distante, que sofre com uma praga, que causou tempestades de poeira constantes. Obrigados a viver nesse mundo praticamente pós-apocalíptico, porém que ao menos parece plausível, os humanos procuram apenas sobreviver. É uma Terra que não precisa de engenheiros, mas sim de fazendeiros, de alimentos.

Cooper mora com seus dois filhos, Tom e Murph, jovens com um futuro promissor e seu pai Donald (John Lithgow). Através de uma anomalia gravitacional, Cooper descobre junto com Murph, a sede escondida da NASA. Em um mundo que mal tem comida, quem vai pensar em exploração espacial, certo?

Em pouco tempo, o engenheiro/fazendeiro, que também já foi piloto de testes da agência espacial, é convidado pela NASA (que não sabia que Cooper estava vivo) para uma viagem rumo ao desconhecido.

Murph encontra dificuldades para deixar o pai partir em uma missão em que ninguém sabe se vai dar certo e que não tem uma data certa para acabar. Tudo em nome da confiança na teoria do professor Brand (Michael Caine), cabeça da missão toda, e na fé na ciência.

A ideia da missão é encontrar um buraco-de-minhoca recém-descoberto por cientistas, próximo da órbita de Saturno, que leva a uma nova galáxia. Nela, foram descobertos planetas que provavelmente podem ser habitáveis. Para tirar a dúvida, voluntários/cientistas partiram em uma viagem solitária e sem volta para conhecer os planetas  O que é um tiro no escuro, já que "provável" pode significar a morte. Mesmo assim, é melhor do que ficar na Terra comendo poeira e aguardando a extinção.

Apesar do péssimo cenário no planeta Terra, a tecnologia avançou bastante em certos quesitos. Os humanos aprenderam a viajar longas distâncias em menos tempo, aprenderam a programar um estado de hibernação para esperar o tempo passar e criou a mais alta tecnologia em inteligência artificial.

O TARS e o CASE são robôs de suporte aos tripulantes, que trabalham tanto na manutenção e movimentação da nave, quanto em piadinhas programadas. É possível medir 90% de sinceridade, 70% de humor...eles são úteis, simpáticos e possuem um formato um tanto quanto mutante, com formas que podem mudar de acordo com a adaptação de terreno. Definitivamente, um excelente ponto positivo.

Após a "pesquisa", três planetas foram confirmados como habitáveis pelos próprios voluntários. O papel da equipe de Cooper, composta por Brand (Anne Hathaway), Doyle (Wes Bentley) e Romilly (David Gyasi), é visitar os planetas e confirmar a possibilidade de viver em um deles.

Após a apresentação da Terra devastada e o vínculo forte da família de Cooper, Christopher Nolan começa com as esperadas cenas de espaço.

Assim como em "Gravidade", elas são de tirar o fôlego. A trilha sonora consegue mostrar a solidão do espaço com um piano tranquilo e ao mesmo tempo a imponência do silêncio.

Com tanto tempo de missão, afinal Saturno não fica ali na esquina, Nolan opta por temas como amor, fé e humanidade, porém sem a visão piegas. Para debater o efeito causado pelo tempo, os quatro tripulantes da nave conversam sobre a real compreensão do amor e a sua utilidade na sociedade.

Um interessante ponto é tocado por Brand: "Seria o amor algo maior? Um artefato de dimensão superior que não notamos conscientemente?". Nada de errado na colocação. Humanos amam pessoas mortas, amam pessoas que não conhecem, amam pessoas que ainda vão nascer e são capazes de amar mesmo distantes uns dos outros. Não inventamos o amor, nascemos sentindo, algo tão comum quanto respirar ou piscar.

Teria o amor um outro sentido? "Afinal, o amor é a unica coisa capaz de transcender as dimensões de tempo e espaço", completa a Dra. Brand. Misteriosa ou não, essa necessidade de estar com outras pessoas nos faz humanos, nos dá vontade de viver.

Me chamou a atenção essa procura minuciosa pelos detalhes com algo que não sabemos como funciona. A passagem pelo buraco-de-minhoca e a aproximação do buraco negro são cenas simplesmente espectaculares, daquelas para voltar várias vezes para assistir com calma.

Trata-se de um cuidado impecável na tentativa de demonstrar algo que nunca foi visto, porém da forma mais plausível possível. Nunca vimos algo parecido, mas acreditamos que, se acontecesse, seria daquela forma. E isso é muito daquilo da velha magia do cinema, de tentar levar o espectador em locais nunca antes desvendados.

Nolan toma cuidado para explicar e deixar tudo bem claro para ninguém se perder com a história do espaço-tempo. Aquela história, o tempo de alguém que viaja no tempo-espaço na velocidade da luz é diferente de quem fica na Terra. E é exatamente isso que apresenta um desenvolvimento aos personagens que ficaram na Terra, como Murph (adulta vivida por Jessica Chastain) ou o professor Brand.

Preciso destacar também que é uma puta coragem para um diretor consagrado como o Nolan contar uma historia tão arriscada, muito, muito longe da zona de conforto..

Existe até a teoria de que "eles" (leia-se deuses, extraterrestres, algo superior) estão nos olhando em algum lugar da quinta dimensão. "Eles" ajudam a nossa compreensão. Se não somos tão evoluídos a ponto de conversarmos, "eles" nos ajudariam a entender a nossa realidade. "E se, para 'eles', o tempo e só uma questão física, de subir ou descer uma colina?", diz mais uma vez a Dra. Brand. A apresentaçao de tempo como algo físico me fascinou.


Diferente de "A Origem", o final apresenta uma resposta justa a todas as pontas soltas. Não precisa esperar os créditos para saber se o peão parou de rodar. Existem casos e casos, claro, mas aquele papo de "o final fica à mercê do espectador" para mim é história de diretor e redator que não tem culhões para sustentar seu próprio final.

Quanto as atuações, o filme me levou tão longe, que parei de prestar atenção em Matthew McConaughey, Anne Hathawhay ou Chastain. Eram apenas os personagens. Acredito que isso é um ótimo elogio. Sabe quando falam que o árbitro que não aparece no jogo é aquele que está com a partida em suas mãos?

Um filme de imagens espectaculares, diálogos inteligentes sobre assuntos importantes da existência humana e a megalomania do Nolan. Espero que a moda de filmes espetaculares no espaço continue por um bom tempo. Seja esse tempo físico ou não.

Nota (de zero a cinco): 4,5

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

[Cinema] Os premiados do Oscar

Pois é, o Oscar foi sensacional! Como sempre, muitas surpresas, torci o nariz quanto a alguns vencedores, porém, no resultado geral, fiquei satisfeito.


Gostei bastante da apresentação de Seth Macfarlane, criador da Família da Pesada e dublador do Ted, entre inúmeras outras funções do americano.
Ri bastante da interação com o sempre capitão da Enterprise, William Shatner, a música "We Saw Your Boobs", a piada sobre Argo contar uma uma história secreta, tão secreta que a Academia ainda não reconheceu o diretor do filme. (falando sobre a não-indicação de Ben Affleck na categoria de Melhor Diretor).

Gosto dessa coisa de "se posso fazer piadas de quem me contratou, quem dirá dos outros!". E também sobre o publico ainda vaiar sobre uma piada sobre a morte do presidente Lincoln. "Já se passaram 150 anos e ainda não posso brincar sobre isso? Esperem só pelas piadas de Napoleão que tenho à seguir!".

Creio que uma das maiores surpresas da noite, foi ver Lincoln, que foi indicado 12 vezes, perder 10 prêmios! As únicas vitórias do filme foram com o ator Daniel Day-Lewis que deu um show como o 16º  Presidente americano Abraham Lincoln e com o Melhor Design de Produção. Daniel se tornou o maior vencedor da categoria com 3 estatuetas. Ele já havia ganhado por “Meu pé esquerdo” (1989) e “Sangue negro” (2007). Infelizmente para Hugh Jackman e Bradley Cooper, que fizeram ótimos papéis em Os Miseráveis e O Lado Bom da Vida , respectivamente, porém pararam em um impecável Daniel Day-Lewis e sua incarnação perfeita de Lincoln.


Fiquei feliz pela vitória da Jennifer Lawrence, que já aos 22 anos, mostra que é uma brilhante atriz em O Lado Bom da Vida". Infelizmente,ao subir no palco, Jennifer deu uma leve tropeçada (até caindo ela é linda), mas levou na esportiva e manteve a classe, com um discurso bem humorado. "Vocês só estão me aplaudindo de pé porque eu cai né" - disse a jovem estrela perante uma verdadeira constelação de gigantes.


Ela já havia feito um grande trabalho em O Inverno da Alma, que não foi muito divulgado aqui no Brasil, trabalho que inclusive recebeu indicação ao Oscar de Melhor Atriz. E Jennifer já tem um grande futuro, tendo em vista que está escalada para grandes franquias de Hollywood como X-Men  e Jogos Vorazes. As sequências já foram anunciadas e Jogos Vorazes - Em Chamas e X-Men: Dias de um Futuro Esquecido já foram anunciados para 2013 e 2014, respectivamente. Após a premiação, alguns fotógrafos brincaram com Jennifer sobre sua queda. E respondeu com grande classe.

 
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Outra certeza era a vitória já prevista era a de Melhor Atriz Coadjuvante da Anne Hathaway, que mostrou ser uma das melhores atrizes dessa nova geração com o papel de Fantine no musical Os Miseráveis. Anne já tinha sido indicada em 2009 para Melhor Atriz pelo filme O Casamento de Rachel.

Falando em Os Miseráveis, o musical venceu 3 das 8 categorias que disputou. Venceu também com Mixagem de Som e Melhor Maquiagem, além da Melhor Atriz Coadjuvante Anne Hathaway. Quem diria que 12 anos depois de O Diário da Princesa, Anne ganharia seu próprio Oscar. Como Anne disse olhando para a estatueta dourada: "O sonho se tornou realidade".


A noite teve uma homenagem aos musicais e teve apresentações de Catherine Zeta-Jones para Chicago, Jennifer Hudson (que voz essa mulher tem!) para DreamGirls e todo o elenco de Os Miseráveis fizeram uma apresentação de arrepiar. Mostrou que Hugh Jackman, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Russell Crowe, Helena Bonham Carter, Sacha Baron Cohen e todo elenco, além de serem brilhantes atores, são excelentes cantores. Foi uma apresentação marcante.


Sobre as animações, creio eu que o nome gigante em cima do título de Valente - "PIXAR" - influenciou e muito na escolha de Melhor Longa Animado. Pelas críticas que li, o verdadeiro merecedor era Detona Ralph.

A noite de ontem, também foi especial para os amantes do agente James Bond. O novo filme 007 - Operação Skyfall ganhou em Canção Original, com a interpretação da grande (rs) cantora Adele e empatou com "A Hora Mais Escura" em Edição de Som. Raridade ver o cinquentão 007 ganhando Oscars.


Adele inclusive apresentou a música tema no palco, após a interpretação de Goldfinger por Shirley Bassey. Também se apresentou a cantora que já ganhou dois Oscars,  Barbra Streisand após o anuário "In Memoriam", falando sobre a morte dos famosos e que fizeram a industria do cinema crescer.

Já o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante foi pela segunda vez para o austríaco Christoph Waltz. Ele já tinha ganhado em 2010 pelo sensacional Bastardos Inglórios e repete agora com o papel de Dr. King Schultz de Django Livre. Falando em Django, nada mais merecido do que o prêmio de Roteiro Original dado ao mito (e um dos meus diretores favoritos) Quentin Tarantino.




















Falando agora sobre prêmios técnicos, a vitória foi de As Aventuras de Pi. A Melhor Fotografia, Efeitos Visuais  e Trilha Sonora Original foram para o filme do diretor taiwanês Ang Lee, que já havia vencido a categoria em 2006 por O Segredo de Brokeback Mountain. Ele venceu o inclusive o consagrado Steven Spielberg.


Mas a maior surpresa de todas e para mim também o maior erro foi Argo. O filme de Ben Affleck venceu como o Melhor Filme. Ainda não pude assistir ao filme, porém é uma gigante incoerência da Academia, falar que um filme digno de ser o melhor do ano, não tem o seu diretor sequer entre os indicados da categoria de Melhor Diretor.

Argo, venceu além de Melhor Filme, as estatuetas douradas de Roteiro Adaptado e Edição.
Depois de uma carreira de altos e baixos, com filmes excelentes e bombas como O Demolidor (o que foi visto, jamais será esquecido), Affleck se mostra como um dos maiores injustiçados que Hollywood já criou. Era um grande ator e virou um excelente diretor. A estatueta de Melhor Filme, apesar de acreditar que Os Miseráveis, O Lado Bom da Vida e As Aventuras de Pi, também sejam merecedores, caiu em boas mãos com Argo. Caiu na mão do cara que batalhou pra mostrar que não é apenas um ator de Blockbusters e de filmes médios. Hoje Ben Affleck é um excelente diretor e ninguém pode lhe tirar isso.


Mais um Oscar. Mais filmes sensacionais. Só o Oscar pode juntar a experiência de quem um dia foi grande e a juventude de quem hoje vive em seu auge. O cinema prova mais uma vez que não tem prazo de validade. A arte agradece. A gente agradece.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

[Cinema] O Oscar, a minha teoria e o amor da Academia por papéis históricos

Nem parece que faz um ano e já chegou mais um Oscar! E esse ano eu consegui a proeza de assistir só 3 filmes que estão entre os indicados ao Oscar. Triste.

Eu adoro ver o Oscar e toda a magia em sua volta porque cinema, é uma das áreas que definitivamente quero seguir como jornalista.

Tenho uma teoria sobre a Academia e o seu amor por papéis históricos. E se essa teoria se mostrar correta, Lincoln vai ganhar tudo que tem direito. Calma, eu explico.

A Academia adora filmes dramáticos, com papéis históricos. 

Falo que a Academia gosta de papéis históricos, porque atualmente, quem faz um desses papéis é sempre um dos favoritos ou é o vencedor. Duvida? Vamos aos exemplos: 

O Discurso do Rei = Vitória em Melhor Filme e Ator para Colin Firth.


A Rainha = Indicado a Melhor Filme e vitória da Atriz Helen Mirren.


Elizabeth: A Era de Ouro = Venceu Melhor Figurino e indicação de Atriz para Cate Blanchett.


A Dama de Ferro: Venceu melhor Atriz com a brilhante Meryl Streep e Melhor Maquiagem.


Milk: Venceu Melhor Ator o Sean Penn e Melhor Roteiro Original.


*O Último Rei da Escócia: Venceu como Melhor Ator Forest Whitaker.



* O personagem de Whitaker é fictício, mas história baseada em fatos reais.

Essa lista podia se alongar ainda mais, tendo em vista que peguei apenas filmes relativamente atuais.

Pelo visto, se o ator ou atriz fizer um papel histórico, já sabe! A probabilidade dele vencer é grande! Vejamos se Lincoln completa minha teoria.

Ainda mais agora, com o presidente favorito de todo americano depois do Bush  ~~apagar~~.